amór te

Desejo que você morra, e acredite em um céu, num inferno, para que possamos viver a morte juntos. Bebemos demais nessa vida e não nos amamos enquanto sóbrios. Sessenta porcento de teor depressivo que encharcou nossa virgindade. Nadávamos nus d'baixo da tempestade, respirávamos água, nos amamos profundamente a ponto de não mais enxergar a luz daquela lua. Molhados de sangue, escorrendo entre os lábios em nosso beijo. Gosto de amor, desejo pela dor.

o grande amor

Alfred amarra as mãos de Olivia, a grande plateia atenta à mágica. Amarrada, ela é jogada num tanque d’água onde tem que se soltar em quinze segundos. Mas esta noite algo deu errado na apresentação. Ela não conseguiu desatar o nó e morreu afogada. Em todas as apresentações o nó foi combinado nos bastidores. A perícia indicou um nó desconhecido. Alfred, foragido, fugiu para uma cidade distante com pouco mais de 30 mil habitantes e refez sua vida com outra identidade.

Cenário épico e talvez o mais bem apresentado até os dias de hoje. Homens de terno e elas com longos e bem decorados vestidos, cuja importância com os cabelos e maquiagem contemplam as suas autoridades.

Hoje eu te amo. Um coração que bate dia sim, dia não. Alfred Borden recomeçou sua vida em um teatro pequeno nesta cidade que se mudara com um assistente que lhe ajudaria, apostando na atração da plateia atenta e ansiosa. Mas estava em um ponto onde o público já estava repulso aos números com argolas, cartas e cartolas, e passou a vaiá-lo. Ele insiste, mas a plateia abandona o teatro. Porém, ficou uma mulher e isto chamou atenção de Alfred. Sarah diz que gostou de suas mágicas e o acha fascinante pelo jeito em que conduz os olhares.

Sarah o procurou mais vezes e começaram a se conhecer, até que passaram a morar juntos em uma humilde casa construída e mantida pelo pouco dinheiro das apresentações. Ela resolve então conversar com Alfred e o impedir de executar mágicas, não estão dando o sustento necessário para a casa que sofre aos poucos, necessitada de reparos e móveis. Além de que, não está dando mais para pagar o assistente. Alfred por a amar tanto, utilizou um de seus recursos que mais dominava: a mágica, e muitas vezes a deixou confusa sobre aquilo que era real ou ilusão. Alfred em um descuido de olhares, apareceu em outro cômodo da casa: o quarto, com uma flor na mão, dando uma noite de prazer que sanou por dias a inquietação dela. Em muitas vezes pediu uma explicação para aquilo que fugia da realidade e Alfred insistia na resposta: -Independente da mágica, se você sempre à executar, todos irão te achar fascinante, mas o dia em que você contar o segredo, ela se torna obsoleta. O segredo não é fascinante.

A questão era que realmente estavam necessitando de uma vida melhor e Alfred não colaborava todos os dias, era bipolar, haviam dias que não tinha paciência. Em muitos desses dias, Sarah quase desistiu de acreditar que aquele primeiro amor ainda existia, mas o que a tornava viva era a personalidade oposta deste homem, surpreendente e verdadeiro.

Ela já não vivia feliz com tanto mistério e o colocou em posição de opressão, necessitando apenas uma explicação. Alfred Borden então explica sobre seu passado ofuscado. Sarah estava perplexa e perguntou: -Você amarrou ela com o nó correto? Alfred não sabia responder essa pergunta. Sarah insistiu: -Este homem que amarrou o nó, ainda me ama? Alfred novamente não sabia responder.

Alfred Borden sempre comentou sobre um grande truque que havia nas mangas: “O Homem Tele Transportado”. Este seria o sustento da família. O faria junto com seu assistente, um sujeito barbado e calado, mas muito experiente, fator que influenciaria muito pela complexidade do número. Sarah insiste em dizer que não podemos sustentá-lo com o pouco que ganhamos e completa dizendo: - A família agora será maior, estou grávida. Em silêncio ela entrava em depressão pela inconsistência do relacionamento entre eles e agora, era mãe.

“O Homem Tele Transportado” um grande título na entrada do humilde teatro lotado, a plateia atenta e curiosa, ansiosa pelo truque. Um palco de madeira, com duas caixas na altura de um homem, ambas com uma porta cada. Sobe aos palcos e anuncia a plateia que a mágica é real e única. Entra em uma porta, e sai na outra no mesmo instante. O homem foi transportado sem truques, sem ilusão. A plateia vai ao delírio, amigos, familiares e conhecidos, todos queriam ver o espetáculo. Tal acontecimento iniciou um alarde. Fator que propiciou as buscas da polícia. Alfred é preso pelo passado, agora pai.

Jess Borden, com 3 anos de idade, filha de Alfred e Sarah, visita o pai na cadeia dias antes de sua sentença de morte. Jess não entende o por quê da apreensão do pai e não possui capacidade de compreende este fim. Alfred, atrás das grades ao vê-la, talvez pela última vez diz: - Querida, você confia no papai? Prometo jamais te abandonar, sairei daqui logo. Quem a trouxe na cadeia para visita-lo foi seu assistente, pois Sarah enforcou-se a um ano atrás por não ter suportado a pressão de ser mãe viúva.

A cidade irá perder o grande truque do homem tele transportado, Alfred é algemado e levado à forca. Lá ele é amarrado junto com suas habilidades, popularidades e compaixão. O guarda então olha para ele e diz: -Quais são suas últimas palavras? Alfred responde: -Abracadabra! Seus pés se entrelaçam até o último suspiro de vida.

Alfred Borden, homem que deveria estar morto, aparece no dia seguinte em casa, abraça sua filha, único amor que lhe restou, e com ela preza cada dia de vida, sem palcos, sem alardes e vivo.

O assistente que lhe ajudou a executar o grande truque do homem tele transportado. O barbado e calado era um homem idêntico à Alfred, mas utilizando uma barba postiça para não revelar o truque. Enquanto um entrava na porta e saia por baixo do palco, o outro saia na segunda porta da caixa terminando o grande truque. Era sempre bom ser o homem que saia e recebia os aplausos. Eles revezavam um dia cada um era o assistente, e Alfred, para ambos estar inteirados sobre tudo, no final do dia sempre se encontravam para conversar. Alfred realmente amou Sarah, mas quando era seu assistente que estava em sua pele, ele não há amava. Sarah sempre sofreu com essa instabilidade e suicidou-se. O homem preso foi o assistente, que todos acreditavam ser Alfred. Este foi o sacrifício do truque que nunca mais poderá ser feito. O real Alfred, pai, agora pode retirar para sempre a barba postiça e ser livre para estar com sua filha, mas sempre lembrará do homem que foi preso e entregou sua vida pelo amor a mim e ao amor que sentia pela minha filha Jess.

[Conto baseado no filme "O Grande Truque, Christopher Nolan".]

papai noel existe

Meu filho de doze anos deixou um bilhete na árvore de Natal:

Dis a lenda do papai Noel, que ele ia em cada casa e colocava os presentes de baixo da arvore de natal contando quantas crianças tem no mundo seria impossível ele coloca os presentes de baixo da arvore de natal em uma noite e tem casas que tem câmeras como ele nunca foi visto? Isso me faz acreditar que papai Noel não existe e nunca existirá.”

No Natal, Noel recolheu a carta, respondendo para si mesmo:

“Agora, prestes a me aposentar, aguardarei minhas barbas e cabelos ficarem menos grisalhas e tender logo ao branco. Que cresçam logo e muito. Vestirei vermelho, junto a um sinto bem apertado com lindas botas. Preciso ser silencioso ao carregar o saco, está pesado. Mas não sou tão velho assim. Recebi muitas cartas, inclusive de adultos. Irei cumprir meu dever e descansar o resto do ano. Tolos estes que não acreditam em mim.”

Meu filho, nove anos mais tarde conheceu Noel:

Lembro-me de uma cena que me causa arrepios e solidão, mas envolto a uma nostalgia, por uma percepção de criança que ainda me encanta: “Quando tinha cinco anos, a sala da minha casa era grande, com poucos móveis, simples e aconchegante. Naquele entardecer ela brilhava muito pelos pisca-piscas na árvore de natal”. Amava as luzes e por isso era apaixonado pelo Natal. Eu era responsável e tinha sã consciência de me comportar para ser presenteado pelo bom e velho Papai Noel, que acreditava friamente. Ainda lembro meu olhar nesta cena, da sensação de saber que ele viria esta noite trazer presentes. Não queria ir dormir, tinha que espera-lo, mas minha mãe não deixou. Na cama, me segurei o máximo, mas já não lembro nem quando peguei no sono.

Não me recordo quando descobri que ele não existia. Acredito ter entrado na pré-adolescência alguns anos mais tarde e ignorado estas coisas. Porém, hoje me recordo desta cena que logo me domina de tristeza. O velho não podia ser somente uma história, gostaria de tê-lo conhecido.

Vi meu filho crescer rapidamente, desde seus primeiros passos, até suas meras falas em fase de aprendizado. O vi no momento certo para dizer que o Noel existia e havia de se comportar para ganhar presentes. Assim, fui capaz de ajuda-lo a escrever uma pequena lista e colocar na árvore. Fizemos juntos, feito irmãos. Em seu sorriso dos olhos, me via nele, feliz, na proporção que a inocência nos causava.

-“Durma querido, o Papai Noel não gosta de ser incomodado”. Então ele dormiu, busquei os presentes que havia comprado e os rodeei na árvore. Mas entrei em minha própria casa pela janela, para que se ele estivesse acordado, escute que o Papai Noel não tem as chaves. Logo pela manhã quando acordou, correu para ver os presentes. Gritava de alegria, quase lacrimejando. Tive que resistir mais a não chorar. Rasgava a embalagem com muita ferocidade e tudo que pude fazer é rir junto, me emocionar mais uma vez.

Com total compreensão entendi o maior feito de minha vida: Papai Noel era real, se não fosse, ninguém comentaria sobre, nem o levaria por décadas. São meus bisavôs de meus avós, meus avós de meus pais, meus pais de mim, e agora eu, de meu filho. Sou o Papai Noel que pegou a cartinha, buscou os presentes e os devolveu na árvore.

Agora, prestes a me aposentar, aguardarei minhas barbas e cabelos ficarem menos grisalhas e tender logo ao branco. Que cresçam logo e muito. Vestirei vermelho...

...Tolos estes que não acreditam em mim.

trigo

É nesta manhã que acordei para mais um dia de escola, como de costume, escovo os dentes ainda com os olhos pregados, o meu último contato com o espelho do banheiro, como sempre saio com os cabelos bagunçados. Já havia notado que algo estava diferente nesta manhã, como uma superstição. E a primeira evidência aparece: meus pais não acordaram ainda.

Aqui a vida no campo é muito calma, acordo as seis horas, pois tenho uma longa caminhada até a escola, meus pais a esta altura já estão tratando da colheita e do plantio, sempre acordam as quatro e meia, antes mesmo do galo cantar. Deixam a mesa feita para mim e partem a trabalho. Então, nesta manhã, embora preocupado por nunca ter presenciado isto em minha vida, resolvi não os acordar. Desta vez, preparei a mesa para eles, peguei minha mala e parti.

Ao sair avistei uma manhã muito bonita por sinal, um lindo sol, calmo quanto o mar de ressaca. Via nitidamente a sombra da macieira, figueira, abacateiro, ameixeira e goiabeira. Parte do meu café da manhã era roubar os frutos e comê-los enquanto atravessava toda plantação. Eram oitocentos metros até a porteira e mais um quilômetro e meio de estrada de terra até a escola, sorte de quando encontrava a tempo uma carona, poupando me o cansaço.

Pelo tempo ensolarado como a tempos não via, resolvi passear entre as plantações até a portaria, um caminho diferente que não costumava fazer. Beliscava frutos e banhava-me dos raios de sol entre as frestas das plantas. Caminhava quase de olhos fechados pelo envolvimento que aquela manhã pura me causara. Com a cabeça erguida à luz do sol, lentamente passeava escutando os pássaros e ruídos da natureza. Sinto então neste momento cócegas nas mãos, abaixo a cabeça e vejo uma extensão de trigo. Não me recordo de haver trigo em meu jardim, meus pais nunca avisaram. Embora perplexo, ignorei novamente a situação, esta manhã a cada momento me provava ser surpreendentemente diferente.

O trigo era belo, corria entre ele até a beirada da cerca. Era hora de me apressar, ainda haverá uma longa caminhada. Passei a porteira e entrei à beira da estrada de terra. Não avistei nenhum veículo que pudesse me dar carona. Nem se quer uma alma viva para me acompanhar, era Deus e eu.

No caminho voltei a lembrar do trigo em meu jardim, sentia que não me pertencia, nunca havia o avistado, nem se quer ouvido de meus pais. Mas ofusquei os pensamentos, pois já avisto a escola. Sua porteira estava entreaberta e cheia de limo, como as paredes e janelas da escola, abandonada. Parei por um estante não acreditando no que via. Me aproximei da porta, não via e nem ouvia ninguém, a abri, e dentro se manteve em silêncio, inteira rústica, destruída pelo tempo. Passeei pelos corredores para me certificar que não havia ninguém. Estava então inteiramente só, calmamente o desespero me dominava, sentia a respiração ofegante e uma vontade de chorar.

Sai correndo de volta para casa, em minutos atravessei a estrada até avistar as cercas, incluindo o trigo. Empurrei a porteira e corri entre as plantações. Aproximando-me, grito em nome de meus pais, repetindo freneticamente. Entro e corro para seu quarto, não os avisto. A mesa que preparei se mantém intacta. Percorrido a casa inteira, ajoelho-me sobre o chão como desistência, estou sozinho.

Naquele momento tudo pareceu fazer sentido: eu estava morto. E então comecei a me perguntar sobre o estereótipo de céu e inferno criado na terra, onde eu estava? Se aqui for o céu, é lindo, mas é tudo que eu já vi quando na terra. E quanto aos pobres que moram em cantos e barracos, verão também suas casas? Que céu é este e quão solitário és? Mas e se for o inferno, a solidão há de me consumir rapidamente.

Reparei então, ainda ajoelhado no chão, que eu o sentia. Tocava em minha face, e também a sentia. Rastejei-me até próximos a algumas pedras no chão, posicionei os joelhos sobre e senti dor. Se há dor, há mortalidade. Mas o medo de morrer novamente sem saber aonde acordarei, se acordarei. As horas passaram e a solidão como previa, me consumiu e sem pudor, peguei uma corda no celeiro, amarrei em uma viga, tracei um laço, subi em uma cadeira, contornei no pescoço, certifiquei que estava tudo bem encaixado, pois se agonizasse, não haveria nem pássaros para ouvir os gritos. Então eu pulei.

Seus pais estavam atrás de um vidro o vendo durante o transplante de coração. Acabaram de retirar o falecido e em minutos inserirão o novo. Estavam felizes, embora aflitos. Ficaram quatro anos na fila de espera, sem saber se seu filho acordaria bem na manhã seguinte. Horas depois o médico os encontra e diz que a operação foi um sucesso. Seu filho estava de coração resistente!

O coração sempre foi tratado como o ponto principal do corpo, acima até mesmo do cérebro. E de fato é. O coração traz consigo a coragem irracional. É único e infalível. Sempre carregará com sigo o amor e a amargura da vida. O brilho dos olhos partem das suas pulsações, tanto quanto sua identidade, seu hábito, sua história, seu costume e sua capacidade de respirar.

Um ano depois: acordei nesta manhã para mais um dia de escola, como de costume, escovo os dentes e lavo bem o rosto, me analiso bem para garantir que não saia com a blusa amassada e a gola levantada. Meu cabelo está arrumado, a mochila está organizada e é hora de seguir. Passo rapidamente na cozinha, monto a mesa em que tomo café e saio para escola. Que manhã bonita!

paulo, o santo

Dentre as dificuldades de um homem novo, mas já de muitos filhos, nasce ele, mais um para perambular na pobreza e demarcar as linhas geográficas deste pai. Paulo, nascido em berço esplendido em 1875, chegando até, mais tarde, a ter 26 irmãos, todos deste único brasileiro.

Embora o seu nascimento não fosse novidade perante aos montes já paridos, ele sempre foi visto como um menino promissor, embora ainda calado, controlado pelo estilo de vida que dava certo desta maneira. Um pai que sempre acolheu a todos, de acordo como o seu coração mandava. Nunca reconhecido por ninguém, o humilde que jamais foi visto como um bom pai. O resto não considerava os atos de coragem, apenas o que era real naquele momento: a pobreza.

Criou coragem para seguir o conselho de quem o cultivou, opostamente ao caminhar d'outros pais. Incorporou seu perfil acolhedor e bravio. Já tinha idade para cuidar de si e não decepcionou. Mas como seu primordial, nunca foi visto por seus atos. Paulo criara espaço para o observarem, mas sua irmã de nome composto era a maravilhosa, o açúcar no pão. Ela era bela, independente da sua poluição interior.

Assim, decepcionado, não desistiu e lutou por direitos até de seu pai. Crescido tornou-se ídolo, referenciado pelo trabalho, o buscavam para acolher-se, aconchegar em sua beleza, em sua sabedoria e determinação. Proporcionou a muitas pessoas moradias de qualidade e saneamento básico em meio a toda podridão da época.

Conquistou o maior objetivo que poderia, venceu a ditadura e tornou-se o segundo maior homem do mundo, tendo a segunda maior potência que alavancou não só seu pai, mas o saneamento das maiores carências. Paulo crescera em meio a muitas culturas e sempre foi receptivo a elas. Perfil de seu pai, que ainda, para sua maior decepção, era referenciado pela maravilhosa filha, obstruindo todas as suas conquistas.

Ela era o cartão postal da família. Divido entre outros irmãos mais altos e relaxados. Serventes de trabalho escravo. Outros mais baixos e frios, pessoas repulsas, como Catarina. E Paulo, tornou-se o mais sofisticado, receptivo, lúcido, democrático e promissor. Pobre Católico.

Dedicou a maior jornada de sua vida ao catolicismo que agora o decepciona sucessivamente. Tornou-se volúvel as mais diversas crenças e às aceitou como ensinamento. Simultaneamente a todas as suas conquistas esteve crente a Deus, creditou seu progresso a Ele, sua Ordem. Aprofundou-se tanto na sabedoria bíblica, que passou a ser visitado pelos fieis, também aquém a qualquer religião.

Deus existiu em sua vida que transpôs através de um homem feito de realizações significativas, a vida de uma multidão, amado pela constituição e pela significação religiosa. Nomeado locomotiva do pai, que ainda pela realidade não é um dos melhores, mas tem um dos melhores filhos. O povo chorou ao declarar amor e reconhecimento a suas conquistas. O declararam santo, o São Paulo.

a última vida da eterna alma

“Lembro-me apenas de ter operado à de um humano uma vez, sempre foi assim. Elas veem puras de suas gerações do mundo animal e se contaminam em nosso ser...” Ainda dopada pela quantidade de anestesias, ouve vagamente a conversa dos doutores.

2 horas atrás: – A Paciente e a sua nova Alma estão prontas! Diz o Assistente ao Doutor. No ramo há quarenta anos, avista a alma dentro de um pote de vidro de porte médio, encolhida e com expressões de medo. Translúcida e luminosa, branca quanto às nuvens em dia límpido. – Nunca avistei uma tão bonita em toda minha carreira, é uma pena que abrigará em um corpo humano feminino. Sinto por isso, não queria que tivesse esta experiência. Afirma desolado o Doutor. Prossegue seu Assistente: – Esta alma já se abrigou em beija-flor, morcego, coruja, elefante e leão. Agora... É uma pena.

Com o bisturi em mãos, luz baixa e ataduras para reduzir o sangramento. Desintoxica a nuca do corpo morto. Através de um corte com cumprimento de quatro dedos será inserida sua nova vida. – Estamos prontos, traga a alma! Diz o Doutor. O corte é feito e rapidamente vedado por mãos sábias. O pote então é aberto nas proximidades do corte no corpo feminino. Perplexos, os dois apenas observam a suavidade nos movimentos deste espírito que brilha mais do que as ferramentas metálicas da sala. Sem auxílio e com pouca dificuldade, entristecida, lentamente se veste no corpo e se assenta dentro dele, deixando ver apenas a luz pela ferida. – Feche o corte rápido e limpe este sangramento!

“Disseram-me que seria diferente desta vez, abrigar-me em um corpo humano, cuja pureza dos corpos animais antepassados que vivi me permitiram lembrar de toda esta geração. Haviam almas tristes por mim antes de eu partir para cá. Eu vivo apenas enquanto o corpo dorme e sonha. Morro enquanto estes estão acordados. Os maus atos do humano prejudicam a minha pureza e me permitem ter pesadelos por isso. Estas lembranças agregam-se em mim e são carregados pela minha eternidade e gerações.”

– Você acha que esta alma sobreviverá quando este corpo falecer Doutor? Diz o Assistente. – As almas são eternas e se mantém puras enquanto em gerações animais, todas que operei até hoje após a morte do corpo humano, pedem para ser jogadas num cemitério, trancadas no pote de vidro e lá ficam eternamente entristecidas com todas as lembranças da geração humana, seu brilho desaparece e lá são esquecidas. – Mas como você ouve este apelo da alma? Pergunta o Assistente. – Minha alma ouve e me diz em sonhos, meu caro. São anos de trabalho e muito cuidado com o meu espírito. Afirma concentrado o Doutor.

“Sinto muita dor, disseram-me que quando o corpo acordasse, eu esqueceria do que sou, mas não pude imaginar tamanha tortura, como dói...”

– Veja Doutor, ela acordou, deu certo...

a morte é o começo

Independente de em que você crê, a morte virá e levará todo seu orgulho, sua rebeldia, seus status, seu tênis, cargo, reputação, escrituras, sua forma de burlar o sistema, sua coragem de negar a verdade, sua sexualidade, seu amor, seus feitos construídos em um mundo tão breve, seu sorriso e admirações, mas deixará sua consciência e sua alma.

Não tenha coragem para negar os fatos. A morte não é o fim, é o começo de uma tortura eterna. Sua consciência ficará viva para avisar a sua própria alma de quem você é e de quem você foi em terra, para te deixar consciente quando estiver sofrendo. Este sofrimento pode ser equiparado a uma ânsia de vômito interminável e um esfaqueamento por todo corpo, um corpo que nunca adoecerá, apenas resistirá sobrenaturalmente os cortes insuportáveis assim por toda a "vida". Enquanto a dor te domina, sua consciência refletirá de como você agiu quando vivo, dos amigos que possuiu, dos familiares que choram por sua morte e da pessoa que tanto amou. Todos eles morrerão assim como a sua morte.

Haverão lembranças reais dos lugares por onde pisou para te manter consciente de sua identidade, nem a insuportável dor lhe desmaiará de quem você é. Sentirá que está vivo, pois haverá racionalidade, saberá que está sofrendo de dor e ânsia, ouvirá vozes das pessoas que você ama lhe pedindo para que se levante, sentirá a mão delas puxando seu braço e em seguida te largando.

Todo este sofrimento se tornará em uma trilha, passará por determinados lugares vividos, ouvirá determinadas vozes de pessoas queridas e sentirá picos de dores onde não deseja revivê-los. Porém esta trilha de lembranças e sentidos possui um fim. É neste trecho que lembrará que está morto. A morte é eterna e toda esta trilha vivida se iniciará novamente, assim eternamente. Então recomeçam os lugares vividos, as vozes amadas e os picos de dor. Terá noção de todas as horas em que está sofrendo, logo, um dia de sofrimento parecerá uma eternidade trilhando várias vezes este mesmo percurso.

Cuidar da vida é extintivo, natural assim como respirar, piscar, lacrimejar e então, morrer. A morte é esperada desde o primeiro dia de vida e já vista ou tratada como distante. Não acreditar neste fato permite brechas para perdê-la, pois entendendo que aquilo que não está propício à perda, é despercebidamente descuidado.

Aos que morreram, "vivem" até hoje esta angustia e não voltarão para contar.

a partida

São tantas as fontes de inspirações, desde a própria beleza da natureza até a natureza daquilo que consideramos belo. São tantas as horas que temos para amar, mas não as usamos por não acreditar em frações de segundos, aquelas únicas que temos para dizer o que deve ser dito à ela. Ela irá partir sem ouvir algo que sempre sonhou.

Antes mesmo, ela já existia e esperava a minha chegada. Eu não existia, pois hoje descobri que existo por ela existir. Se existir hipóteses de estar sonhando, que seja profundo e não me acorde. Aqui pude imaginar uma locomotiva de 1850 esfumaçando, apitando sua partida. Lembro-me do bilhete sendo furado e meus pés trêmulos pisando sobre os degraus, já em movimento.

Horas atrás quando decidi partir, arrumei as malas com o necessário para sobreviver, deixei todos os vestígios da vida que construí até então. Na bilheteria pedi qualquer passagem, implorei para não me dizer o destino e ela cedeu, ouviu minhas preces e me entregou o bilhete. Este foi furado, sentei-me na janela e apenas observei.

Do outro lado de qualquer lugar existe algo que aqui não tem e te pertence, é necessário ir buscá-lo. Lá eu encontrei você sentada na plataforma esperando a chegada do trem. Você me disse que não esperava ninguém.

Horas atrás ela acordou de um sonho inspirador e chorou ao saber que não era real. Sonhou com ele recitando um poema que criara anos atrás antes de à conhecer, escreveu para ela, mas recitaria quando à conhecesse. O choro a fez partir de casa e ir à estação observar aqueles que chegam.

Ela me olhou ao descer do trem e ficamos ali parados, ela sorriu e num gesto de timidez abaixou a cabeça. Sentamos ali e conversamos por horas, das histórias dos sonhos até o sonho de fazer história.

Talvez eu acorde logo, então adianto as palavras que deixei à ela: "Não posso ficar, parto novamente, pois não posso lhe recitar um poema. Este eu não escrevi a anos atrás, não estou nos seus sonhos".

deveria ser simples

É mais simples complicar ou mais complicado simplificar?

A vida poderia ser simples, mas não há mais solução. A tendência é aprimorar estes versos antipoéticos. Comprando a estrofe, falando em poesia, não há mais espaço para ela. Suas palavras deveriam contemplar coisas de uma forma límpida e alucinante. Porém não há o que, ou há, mas deve estar permutando longe, e perto estão os problemas sociais, as taxas de criminalidade e a mediocridade sensacionalista da tevê.

A realidade agora está nos palcos, pois lá as situações são curtas, os ingressos são justos e as consequências da exposição são grandes. A realidade não é mais visível, pois o controle social é tão alto que já se tornou imperceptível, paga-se o juros por aquilo que inexiste. Atire agora pro ar, vende os olhos e não se preocupe com os termos pós-asterisco, há formas de se isentar das altas taxas, mas é garantia de vida que estas serão compensadas em curto e breve prazo.

Deixem que te controle, não reaja. A reação é o que procuram, procuram o seu incomodo. Seu incomodo é o propósito do controle. A percepção do controle é, novamente, um incomodo que não há como burlar. Então, não reaja, não reaja.

Contente-se ou tente se contentar com a sensação de viver realmente livre, de ter escolhas não incentivadas e decidir friamente para o que te faz bem, e não, ao que deveria fazer o bem subtamente imposto. É necessário repetir pela terceira vez: se isente do conhecimento das regras. Apenas as siga, mas não raciocine.

motive-se, por favor

O motivo dessas palavras partem de um pensamento racional preocupado com o emocional: excesso de emotividade. Reflexões nascem de frustrações, princípios da autoavaliação, da atual situação. Não concordar com o que vivemos da forma que se vive é a melhor essência para motivar-se a colocar um ponto final no meio da história. Rescrevê-la ou simplesmente queimá-la pode ser necessário.

São nessas horas em que estamos sozinhos que lembramos de todos aqueles que convivem conosco, cumprindo os mesmos papeis e frequentando os mesmos lugares. Aprendendo sobre a vida com professores que não amam o que ensinam. Criemos uma nova peça publicitária, resolvamos uma equação matemática, construamos um poeta em versos, a cura para o câncer e talvez se matar para passar um apelo aos mortos de motivação, vivos apenas pelo corpo, dizer que estão vegetando, alimentando a incompetência, gerando lucro nos dados do IBGE, servindo de ferramenta para escrita das tábulas que montam a imagem da sociedade.

Partindo então, novamente, desta frustração, encontrar problemas é uma facilidade confortável. Desconfortável é entender que o nós somos o problema, parte dele. Assim, voltar a estaca zero e minunciosamente descobrir o fator predominante da sua motivação é fazer jus a clichê frase "Dar a volta por cima". Mas de fato, dê!

O palco era pequeno, a plateia consequentemente. A questão em pauta é a motivação que simples decisões fazem. Naquele dia, eu era capaz de causar uma intervenção cultural.

Se eu puder pedir um favor, peço que leia aquilo que você escolheu, realize aquilo que você criou e imite os filmes que lhe fazem chorar, eles fazem insinuações para as possibilidades de viver. O corpo necessita deste cuidado, ele clama por conversação. Cuidar da saúde, praticar atividades físicas, usar filtro solar, alimentar-se moderadamente e sim, até satisfazer seus interesses mentais colaboram com a conservação da ferramenta que você jamais construirá: o corpo.

Assim, concluo este texto enxuto com algo que me motiva, espero que te motive: a mistura da arte, dos sonhos, saúde e esportes.

Agora, motive-se, por favor...

steve jobs

Ficou em silêncio por um bom tempo. "Mas por outro lado, talvez seja apenas como um botão de liga-desliga", prosseguiu. "Clique! E a gente já era." Fez outra pausa e sorriu de leve. "Talvez seja por isso que eu jamais gostei de colocar botões de liga-desliga nos aparelhos da Apple."

Steve Jobs, 1955 - 2011. Biografia escrita por Walter Isaacson, ex-presidente da CNN e ex-editor executivo da revista Time.

Nesta biografia não há relatos claros de sua morte, Steve alcançou a imortalidade, como explica o comercial de Johnnie Walker "The Android [O Protótipo]" publicado em 2007: "Você também pode alcançar a imortalidade, basta fazer uma coisa notável".

Só mais uma coisa...